domingo, junho 21, 2015

a pipa

cata pega o vasto vento

voa ágil pelo tempo

gira em torno do seu queixo

numa volta deu um beijo

bem na moita da lagoa

onde moram os percevejos

com um toque fez acorde

canta agora enquanto pode

amanhã cigarra explode

leva a casca para longe

onde o sabiá esconde

a nota d'um

real

guarda bem o beija-flor

muito usado e trocado

por um dois todo azulado

nota nova marca d'água

no inverso sempre a cara

coroada de laurel

quem a encara logo vê

a virada da estátua

mira o verde passarinho

sob a asas sob a águia

sobre tudo a cobertura

sobre cobras e lagartos

sob olhos afiados


que tudo cota

que tudo cobre

que tudo níquel

que tudo nota

que tudo olha

que não importa


guarda o ouro


lança o louro do pirata

papagaio pega a prata

paga o pato e pede água

pinta o sete e dá o pé

pega o pau e vai embora

balançando a rabiola







ouvindo: Queen of the Stone Age - No One Knows


terça-feira, junho 02, 2015

Dicotomias

Sempre dividido
Sempre marcado por dois ou mais lados
Nascido e crescido n'umbral de contrários
Sei bem como é pisar entre dois mundos
Sei bem o que é dicotomia antes mesmo de aprender a ler
Se é que se pode saber entre o ser e o não ser eis a questão de antemão
Dizem que os opostos se atraem
Outros dizem que se distraem
Li certa vez que tanto na dinâmica social ou da física o exato acaba partido,
dividido entre mil atos, cenas, elucubrações
Só sei que devo conhecer bem essa história de frações, divisões de pedaços expostos à prova, pra prova
Ter em conta as oposições e posições díspares mesmo antes de aprender a cartilha,
o caminho suave permeado de entraves, travas elétricas, portas a marcar a repartição de lados
Veja a família, ah, a família, microcosmo de uma variedade de direções de versos
Olhe a minha: de um galho avós vindos do mar, de outro do mato
galhos em grande parte oriundos de um mesmo tronco, a mesma península além-mar:
dividida entre povos cada um com suas tribos e línguas cortadas por acidentes geográficos e sociais: mais um exemplo de exato cindido, cortado, recortado, costurado, remendado
avôs galegos, ou espanhóis, ou galegos espanhóis, ou apenas galegos, ou somente espanhóis setentrionais... de uma banda isabelinos, de outra carlistas
só sei que eram todos monarquistas a aportar numa república de sonhos, espadas
nascimentos, cisões, ressurreições
avós com origem na terrinha, com ancestrais que não perderam de vista o caminho das índias
não as do oriente, mas das Américas, não aquelas do norte com suas linhas retas e
sim as do sul com seus tratados e traçados cheios de curvas, acordos e veias abertas por galego-portugueses meridionais de feições mouriscas e semitas
trilhas nas subidas de serra, picadas na mata de planaltos
campos de batalhas travadas nas linhas de causos trovados por Galeanos em castelhano rio platense
bandeiras a rumar ao oeste em busca do eldorado
conquistas de paus, ocas, tabas, casas daqueles caçados como animais e catequizados como criancinhas
seiva e sangue jorrados no chão da nova colônia, futuro reino, império dos sentidos tropicais e subtropicais a atrair com promessas e princesa e montes de suíços e austríacos a atiçar carnes fundidas em misturas de um caldeirão de feijão com carne marrana
além do preto e do branco e vermelho
misto de repertórios de lendas, folclores de sacis, curupiras e enfim o caipira
casas de pau a pique, Casas Grandes e senzalas prolongadas até décadas marcadas por revoluções de um David contra um gigante nada adormecido
sucessões de lutas silenciosas, caladas ou sonoras
como a ogiva encontrada no jardim da chácara onde morava
quando criança ainda ignorava que crescia num mundo de divisas, estratagemas, táticas
nomenclaturas a costurar tecidos de povos a cobrir a pátria armada com uma colcha de retalhos
Sim, passei a maior parte da vida entre frações, divisões, adições, subtrações, uma aritmética de fractais de passagens e outros mais nós igual a todos
cresci brincando em meio às minas no quintal de casa, a nadar em rios de meses passados entre os estados gravados não apenas no mapa do livro de geografia e suas classificações:
zona rural / zona urbana, zona central / suburbana, vilas clementinas, marianas e brasilândias
Bixiga, Bela Vista, Quinta da Boa Vista, Maracanã, FLAmengo, baixada FLUminense:
bairrismos repartidos em minha memória atual e ancestral
serra / planalto / planície, capital, interior, capital, litoral, capital inicial, capital de giro
ativos/ passivos, baixadas, baixinhos, altos gritos do Ipiranga, classes médias, camponeses, burgueses, paulistinhas, caiçaras, CAriocas da geMA, PAUlistas que se veem como claros..., mineEiROS a comer calados
estados bebendo e comendo lado a lado sobre a alta mesa da Mantiqueira

...membros em tensão, tesão, pulsão

levo em meus canais águas de rios de margens opostas
uma~raia a nadar em interstícios de sítios e coutos mistos
um peregrino a cruzar serras e mares
carrego em mim diversas delas
elas:
às vezes tri
as ditas
di
 coto
   mias

02/06/2015

ouvindo: Criolo - Fermento Pra Massa