Sempre dividido
Sempre marcado por dois ou mais lados
Nascido e crescido n'umbral de contrários
Sei bem como é pisar entre dois mundos
Sei bem o que é dicotomia antes mesmo de aprender a ler
Se é que se pode saber entre o ser e o não ser eis a questão de antemão
Dizem que os opostos se atraem
Outros dizem que se distraem
Li certa vez que tanto na dinâmica social ou da física o exato acaba partido,
dividido entre mil atos, cenas, elucubrações
Só sei que devo conhecer bem essa história de frações, divisões
de pedaços expostos à prova, pra prova
Ter em conta as oposições e posições díspares mesmo antes de
aprender a cartilha,
o caminho suave permeado de entraves, travas elétricas, portas
a marcar a repartição de lados
Veja a família, ah, a família, microcosmo de uma variedade
de direções de versos
Olhe a minha: de um galho avós vindos do mar, de outro do
mato
galhos em grande parte oriundos de um mesmo tronco, a mesma
península além-mar:
dividida entre povos cada um com suas tribos e línguas
cortadas por acidentes geográficos e sociais: mais um exemplo de exato cindido,
cortado, recortado, costurado, remendado
avôs galegos, ou espanhóis, ou galegos espanhóis,
ou apenas galegos, ou somente espanhóis setentrionais... de uma banda isabelinos, de outra
carlistas
só sei que eram todos monarquistas a aportar numa república de sonhos, espadas
nascimentos, cisões, ressurreições
avós com origem na terrinha, com ancestrais que não perderam
de vista o caminho das índias
não as do oriente, mas das Américas, não aquelas do norte
com suas linhas retas e
sim as do sul com seus tratados e traçados cheios de curvas,
acordos e veias abertas por galego-portugueses meridionais de feições mouriscas e semitas
trilhas nas subidas de serra, picadas na mata de planaltos
campos de batalhas travadas nas linhas de causos trovados por Galeanos em castelhano rio platense
bandeiras a rumar ao oeste em busca do eldorado
conquistas de paus, ocas, tabas, casas daqueles caçados como
animais e catequizados como criancinhas
seiva e sangue jorrados no chão da nova colônia, futuro
reino, império dos sentidos tropicais e subtropicais a atrair com promessas e princesa e montes de suíços e austríacos a atiçar carnes fundidas em misturas de um
caldeirão de feijão com carne marrana
além do preto e do branco e vermelho
misto de repertórios de lendas, folclores de sacis, curupiras
e enfim o caipira
casas de pau a pique, Casas Grandes e senzalas prolongadas
até décadas marcadas por revoluções de um David contra um gigante nada
adormecido
sucessões de lutas silenciosas, caladas ou sonoras
como a ogiva encontrada no jardim da chácara onde morava
quando criança ainda ignorava que crescia num mundo de
divisas, estratagemas, táticas
nomenclaturas a costurar tecidos de povos a cobrir a
pátria armada com uma colcha de retalhos
Sim, passei a maior parte da vida entre frações, divisões,
adições, subtrações, uma aritmética de fractais de passagens e outros mais nós igual a todos
cresci brincando em meio às minas no quintal de casa, a
nadar em rios de meses passados entre os estados gravados não apenas no mapa do
livro de geografia e suas classificações:
zona rural / zona urbana, zona central / suburbana, vilas clementinas, marianas e brasilândias
Bixiga, Bela Vista, Quinta da Boa Vista, Maracanã, FLAmengo, baixada FLUminense:
bairrismos repartidos em minha memória atual e ancestral
serra / planalto / planície, capital,
interior, capital, litoral, capital inicial, capital de giro
ativos/ passivos, baixadas, baixinhos, altos gritos do Ipiranga, classes médias, camponeses, burgueses, paulistinhas, caiçaras, CAriocas da geMA, PAUlistas que se veem como claros..., mineEiROS a comer calados
estados bebendo e comendo lado a lado sobre a alta mesa da Mantiqueira
...membros em tensão, tesão, pulsão
levo em meus canais águas de rios de margens opostas
uma~raia a nadar em interstícios de sítios e coutos mistos
um peregrino a cruzar serras e mares
carrego em mim diversas delas
elas:
às vezes tri
as ditas
di
coto
mias
02/06/2015
ouvindo: Criolo - Fermento Pra Massa