sexta-feira, novembro 06, 2015

Qual a natureza por trás dos montes?...

Às vezes, muitas poucas vezes, me pergunto sobre o que as pessoas próximas, e talvez nem tão próximas assim, perguntam sobre mim. Não da minha pessoa em si, se é que uma pessoa dentro de outra de fato existe, mas do estado ao meu redor, da cidade, do bairro, do cenário onde minha vida está no momento atual: vivendo numa colina, praticamente na zona rural, afastado da cidade, pequena ainda por cima... Me faço agora tal pergunta por ouvi-la por aí, e algumas vezes, mesmo que poucas, de vozes vindas de minha cabeça. O mais engraçado é que a frequência de meu questionário nos dias de hoje costuma ser mais raro do que em dias passados, quando não passava um dia sequer sem me perguntar a seguinte questão: o que estou fazendo aqui, nesse caos? E me dei conta de que foram raríssimas as vezes nas quais me lembro - e olha que tenho uma ótima memória - que alguém me perguntava sobre o porquê de estar ali , naquela época e espaço. Agora, de onde estou, as pessoas me perguntam mais sobre o motivo de estar aqui, isolado às vezes por dias seguidos sem ver ninguém além de minha imagem refletida no espelho, como aquele personagem de um conto do Machado, se não me falha a memória com o título de " O Medalhão", que após ser nomeado a um importante cargo acaba obrigado a passar dias isolado numa chácara e chega quase a enlouquecer, até ter a brilhante ideia de vestir a farda capaz de lembrá-lo de seu sentido de vida, o medalhão do título. Claro que também cheguei a me questionar sobre qual seria o meu medalhão, é inevitável em algum momento da vida de todos, ainda mais ao se passar dias sem ver ninguém além das telas quadradas da tecnologia. E uma das possíveis respostas, mesmo que não definitivas, é a sensação de não fazer mais parte do imenso caldo humano fervente e sugado morno pelos lábios da imensa boca hábil em esfriar os ingredientes que correm de um lado para o outro sobre e sob sua enorme e áspera língua. Sim, destilei essa extensa descrição para ilustrar a grande metrópole urbana onde vivia. Aquele espaço comparado a tantas esferas, desenhado por tantas metáforas que as possibilidades de uso de suas imagens até parecem gastas, em alguns casos até esgotadas, apesar de ilimitada. No entanto, em minha atual situação, longe dela há um tempo considerável - por volta de três anos - nada mais natural do que torná-la assunto de minhas pautas, indagações, metáforas que já elaborava quando nela vivia: a grande cidade, suas possibilidades, limitações. Não tenho a pretensão de fazer aqui, do alto desta verde colina, um juízo de valor detalhado sobre seu dia a dia, suas relações, mobilidade, ofertas de atividades, entre outros pontos nervosos, apesar de ter todo o direito de tecê-los e vez ou outra chegar a expressá-los - geralmente numa das tentativas de responder às perguntas acima, - muito menos tenho a intenção de mostrar as vantagens de uma vida "alternativa", não é este o ponto. Apenas tento entender o que habita por detrás das alternâncias e frequências de certas perguntas: qual seria sua natureza, tanto alheias quanto minhas...quiçá de vocês...

(a continuar...)

ouvindo: Gotan Project - Diferente