Às vezes, muitas poucas vezes, me pergunto sobre o que as pessoas próximas, e talvez nem tão próximas assim, perguntam sobre mim. Não da minha pessoa em si, se é que uma pessoa dentro de outra de fato existe, mas do estado ao meu redor, da cidade, do bairro, do cenário onde minha vida está no momento atual: vivendo numa colina, praticamente na zona rural, afastado da cidade, pequena ainda por cima... Me faço agora tal pergunta por ouvi-la por aí, e algumas vezes, mesmo que poucas, de vozes vindas de minha cabeça. O mais engraçado é que a frequência de meu questionário nos dias de hoje costuma ser mais raro do que em dias passados, quando não passava um dia sequer sem me perguntar a seguinte questão: o que estou fazendo aqui, nesse caos? E me dei conta de que foram raríssimas as vezes nas quais me lembro - e olha que tenho uma ótima memória - que alguém me perguntava sobre o porquê de estar ali , naquela época e espaço. Agora, de onde estou, as pessoas me perguntam mais sobre o motivo de estar aqui, isolado às vezes por dias seguidos sem ver ninguém além de minha imagem refletida no espelho, como aquele personagem de um conto do Machado, se não me falha a memória com o título de " O Medalhão", que após ser nomeado a um importante cargo acaba obrigado a passar dias isolado numa chácara e chega quase a enlouquecer, até ter a brilhante ideia de vestir a farda capaz de lembrá-lo de seu sentido de vida, o medalhão do título. Claro que também cheguei a me questionar sobre qual seria o meu medalhão, é inevitável em algum momento da vida de todos, ainda mais ao se passar dias sem ver ninguém além das telas quadradas da tecnologia. E uma das possíveis respostas, mesmo que não definitivas, é a sensação de não fazer mais parte do imenso caldo humano fervente e sugado morno pelos lábios da imensa boca hábil em esfriar os ingredientes que correm de um lado para o outro sobre e sob sua enorme e áspera língua. Sim, destilei essa extensa descrição para ilustrar a grande metrópole urbana onde vivia. Aquele espaço comparado a tantas esferas, desenhado por tantas metáforas que as possibilidades de uso de suas imagens até parecem gastas, em alguns casos até esgotadas, apesar de ilimitada. No entanto, em minha atual situação, longe dela há um tempo considerável - por volta de três anos - nada mais natural do que torná-la assunto de minhas pautas, indagações, metáforas que já elaborava quando nela vivia: a grande cidade, suas possibilidades, limitações. Não tenho a pretensão de fazer aqui, do alto desta verde colina, um juízo de valor detalhado sobre seu dia a dia, suas relações, mobilidade, ofertas de atividades, entre outros pontos nervosos, apesar de ter todo o direito de tecê-los e vez ou outra chegar a expressá-los - geralmente numa das tentativas de responder às perguntas acima, - muito menos tenho a intenção de mostrar as vantagens de uma vida "alternativa", não é este o ponto. Apenas tento entender o que habita por detrás das alternâncias e frequências de certas perguntas: qual seria sua natureza, tanto alheias quanto minhas...quiçá de vocês...
(a continuar...)
ouvindo: Gotan Project - Diferente
Apenas uma página de gritos e sussurros, de incertos e absurdos, impressões e expressões, pensamentos e emoções condensados e sintetizados em palavras grifadas e GRITADAS!!!
sexta-feira, novembro 06, 2015
domingo, junho 21, 2015
a pipa
cata pega o vasto vento
voa ágil pelo tempo
gira em torno do seu queixo
numa volta deu um beijo
bem na moita da lagoa
onde moram os percevejos
com um toque fez acorde
canta agora enquanto pode
amanhã cigarra explode
leva a casca para longe
onde o sabiá esconde
a nota d'um
real
guarda bem o beija-flor
muito usado e trocado
por um dois todo azulado
nota nova marca d'água
no inverso sempre a cara
coroada de laurel
quem a encara logo vê
a virada da estátua
mira o verde passarinho
sob a asas sob a águia
sobre tudo a cobertura
sobre cobras e lagartos
sob olhos afiados
que tudo cota
que tudo cobre
que tudo níquel
que tudo nota
que tudo olha
que não importa
guarda o ouro
lança o louro do pirata
papagaio pega a prata
paga o pato e pede água
pinta o sete e dá o pé
pega o pau e vai embora
balançando a rabiola
ouvindo: Queen of the Stone Age - No One Knows
voa ágil pelo tempo
gira em torno do seu queixo
numa volta deu um beijo
bem na moita da lagoa
onde moram os percevejos
com um toque fez acorde
canta agora enquanto pode
amanhã cigarra explode
leva a casca para longe
onde o sabiá esconde
a nota d'um
real
guarda bem o beija-flor
muito usado e trocado
por um dois todo azulado
nota nova marca d'água
no inverso sempre a cara
coroada de laurel
quem a encara logo vê
a virada da estátua
mira o verde passarinho
sob a asas sob a águia
sobre tudo a cobertura
sobre cobras e lagartos
sob olhos afiados
que tudo cota
que tudo cobre
que tudo níquel
que tudo nota
que tudo olha
que não importa
guarda o ouro
lança o louro do pirata
papagaio pega a prata
paga o pato e pede água
pinta o sete e dá o pé
pega o pau e vai embora
balançando a rabiola
ouvindo: Queen of the Stone Age - No One Knows
terça-feira, junho 02, 2015
Dicotomias
Sempre dividido
Sempre marcado por dois ou mais lados
Nascido e crescido n'umbral de contrários
Sei bem como é pisar entre dois mundos
Sei bem o que é dicotomia antes mesmo de aprender a ler
Se é que se pode saber entre o ser e o não ser eis a questão de antemão
Dizem que os opostos se atraem
Outros dizem que se distraem
Li certa vez que tanto na dinâmica social ou da física o exato acaba partido,
dividido entre mil atos, cenas, elucubrações
Só sei que devo conhecer bem essa história de frações, divisões
de pedaços expostos à prova, pra prova
Ter em conta as oposições e posições díspares mesmo antes de
aprender a cartilha,
o caminho suave permeado de entraves, travas elétricas, portas
a marcar a repartição de lados
Veja a família, ah, a família, microcosmo de uma variedade
de direções de versos
Olhe a minha: de um galho avós vindos do mar, de outro do
mato
galhos em grande parte oriundos de um mesmo tronco, a mesma
península além-mar:
dividida entre povos cada um com suas tribos e línguas
cortadas por acidentes geográficos e sociais: mais um exemplo de exato cindido,
cortado, recortado, costurado, remendado
avôs galegos, ou espanhóis, ou galegos espanhóis,
ou apenas galegos, ou somente espanhóis setentrionais... de uma banda isabelinos, de outra
carlistas
só sei que eram todos monarquistas a aportar numa república de sonhos, espadas
nascimentos, cisões, ressurreições
nascimentos, cisões, ressurreições
avós com origem na terrinha, com ancestrais que não perderam
de vista o caminho das índias
não as do oriente, mas das Américas, não aquelas do norte
com suas linhas retas e
sim as do sul com seus tratados e traçados cheios de curvas,
acordos e veias abertas por galego-portugueses meridionais de feições mouriscas e semitas
trilhas nas subidas de serra, picadas na mata de planaltos
campos de batalhas travadas nas linhas de causos trovados por Galeanos em castelhano rio platense
trilhas nas subidas de serra, picadas na mata de planaltos
campos de batalhas travadas nas linhas de causos trovados por Galeanos em castelhano rio platense
bandeiras a rumar ao oeste em busca do eldorado
conquistas de paus, ocas, tabas, casas daqueles caçados como
animais e catequizados como criancinhas
seiva e sangue jorrados no chão da nova colônia, futuro
reino, império dos sentidos tropicais e subtropicais a atrair com promessas e princesa e montes de suíços e austríacos a atiçar carnes fundidas em misturas de um
caldeirão de feijão com carne marrana
além do preto e do branco e vermelho
misto de repertórios de lendas, folclores de sacis, curupiras
e enfim o caipira
casas de pau a pique, Casas Grandes e senzalas prolongadas
até décadas marcadas por revoluções de um David contra um gigante nada
adormecido
sucessões de lutas silenciosas, caladas ou sonoras
como a ogiva encontrada no jardim da chácara onde morava
quando criança ainda ignorava que crescia num mundo de
divisas, estratagemas, táticas
nomenclaturas a costurar tecidos de povos a cobrir a
pátria armada com uma colcha de retalhos
Sim, passei a maior parte da vida entre frações, divisões,
adições, subtrações, uma aritmética de fractais de passagens e outros mais nós igual a todos
cresci brincando em meio às minas no quintal de casa, a
nadar em rios de meses passados entre os estados gravados não apenas no mapa do
livro de geografia e suas classificações:
zona rural / zona urbana, zona central / suburbana, vilas clementinas, marianas e brasilândias
Bixiga, Bela Vista, Quinta da Boa Vista, Maracanã, FLAmengo, baixada FLUminense:
bairrismos repartidos em minha memória atual e ancestral
serra / planalto / planície, capital, interior, capital, litoral, capital inicial, capital de giro
Bixiga, Bela Vista, Quinta da Boa Vista, Maracanã, FLAmengo, baixada FLUminense:
bairrismos repartidos em minha memória atual e ancestral
serra / planalto / planície, capital, interior, capital, litoral, capital inicial, capital de giro
ativos/ passivos, baixadas, baixinhos, altos gritos do Ipiranga, classes médias, camponeses, burgueses, paulistinhas, caiçaras, CAriocas da geMA, PAUlistas que se veem como claros..., mineEiROS a comer calados
estados bebendo e comendo lado a lado sobre a alta mesa da Mantiqueira
...membros em tensão, tesão, pulsão
estados bebendo e comendo lado a lado sobre a alta mesa da Mantiqueira
...membros em tensão, tesão, pulsão
levo em meus canais águas de rios de margens opostas
uma~raia a nadar em interstícios de sítios e coutos mistos
um peregrino a cruzar serras e mares
carrego em mim diversas delas
elas:
às vezes tri
as ditas
di
carrego em mim diversas delas
elas:
às vezes tri
as ditas
di
coto
mias
mias
02/06/2015
ouvindo: Criolo - Fermento Pra Massa