Os azulejos a cobrir o topo da pequena mureta rodeando o alpendre em forma de L vertido à direita encontravam-se quebrados, tanto que se via de longe alguns trechos a mostrar espaços vazios com cor de cimento gasto. As duas janelas de correr coladas na parede do pé daquela letra, muitas vezes abertas a deixar o sol entrar e o vento calmo passar e colocar as cortinas a dançar, agora jaziam cerradas e com o metal de retângulos de vidro trincado e enferrujado. Nem mesmo os dois pequenos jardins cingindo as duas muretas escapavam à nova paisagem e antiga passagem, pois onde antes havia flores e folhas estampadas, agora só restava terra revolta, dois pés de uma planta roxa e alguns pequenos ramos ordinários.
Os balaústres dispostos em frente à entrada, onde antes formavam um fresco quadrado a indicar o caminho à alta porta principal tocada pelo reto traço do beiral da varanda a opor-se à hipotenusa das linhas do telhado, naquela foto figuravam pelados, sem suas vigas de ligação nem suas folhas de parreira a cobrir a ponta de seus falos cravados naquele piso de massa pisada por aqueles pés, então tornado rachado. Agora era possível ver verdes caules entre os vãos dos tijolos à vista naquele chão coberto de folhas secas arrancadas irremediavelmente por suas mãos circulares, por seus dedos que furam e remoem todas as coisas supostamente frias e estáticas. A única coisa que ali parecia igual era aquela corda amarrada àquele grande e grosso braço segurando o balanço incessante movido por rajadas de ar tenso. O assento de madeira talhada mantinha-se firme para quem quisesse se sentar debaixo daquela árvore desfolhada, que ainda crescia através do senhor responsável por tudo aquilo. O senhor que de tempos em tempos sempre passava para trazer suas estações. O senhor do tempo.
Ouvindo: The New Pornographers - Adventures in Solitude