sábado, maio 26, 2007

Massas amassadas



  • Minha rua tem uma igreja de esquina, vizinha a outra esquina de uma padaria, sempre cheia. Tem dia que o povo até faz fila pra garantir o pão quente que derrete a manteiga. Pão com manteiga e café com leite. Tão básico, tão clássico... Hoje a coisa tava a mesma. Prateleira repleta de todos tipos de pães: franceses, italianos, portugueses, daqui e de ló. Muitas broas boas, bolos altivos, doces, tortas de massa podre esfarelentas... Farinha, leite, fermento, tudo bem assado no ponto certo do freguês - desda plebe ao pequeno burguês. Tudo ali pra colocar no saco, enchê-lo e levar pra casa.
    Fiz meu pedido, fui atendido e caminhei para a saída com o saco, bege e cheio. A fila andara rápida. A esquina ao lado estava cheia de moças bem vestidas, cheias de charminhos, algumas de xale, cabelos bem arrumados e maquiagens um pouco carregadas. Todas pareciam desejar sair bem com suas fitas. Mesmo que para isso tivessem de estrangular as colegas com serpentina e ganhar mais confetes e convites pra festa. "Deve ser uma ocasião especial. Quem sabe um carnaval fora de época...". Quando já andava quase dois quarteirões, deparei-me com uma nova suposição que, de tão óbvia e básica e clássica como pão na chapa, não me atinara até então... Tudo sobre a tal agitação: Um carro pernóstico passava ao meu lado e já ia em direção à tal igreja que comentara, aquela mesma de esquina, vizinha da esquina da padaria. Sem fazer esforço, pude ver de relance o véu branco na cabeça da moça, mulher ou menina. De longe parecia bonita, de longe apenas... Eu já cansado de carregar os casadinhos dentro do saco que havia comprado, logo lembrei do bolo que tinha levado e também do que minha avó costumava falar: "Bom presságio ver noiva a caminho do altar". A mesma avó que não entrava em carro preto por achar que dava azar: "Carro preto é de defunto! Carro de defunto eu não entro nem se for bento...". Ri um pouco ao lembrar dessa minha avó com mão boa pra cozinha como ninguém, que não vejo há um bom tempo por morar em Santos, apesar de não fazer questão de estar de frente pro mar. Agora pouco me atinei para um dos motivos - que nunca perguntei - de meu avô fugir da casa erguida graças aos pães e sonhos de padaria de seus pais. Minha avó, além de querida por ele, era também uma bem feitora de massas e superstições parecidas com as padarias galego-cariocas de seus pais. Não que estivesse interessado em sua mão apenas para fazer strudells germânicos de maçã ou papos de anjo, creio até que algum dia já a tenha quisto para casamento a contento de moças de fitas na cabeça, mas que essa boa prenda ajudou, isso ajudou.
    Já eu, quase perto do portão de casa, estava quase a me fartar com o peso do saco trazido da padaria. Entrei, deixei os casadinhos de minha irmã na mesa e o bolo confeitado de lado. Decidi não comê-lo mais. Estava com um pouco de fome mas não tinha apetite por ele. Apenas distrairia meu estômago que pedia mesmo era um pão clássico com manteiga e quem sabe então um requeijão, um patê, uma geléia... Apenas complemento. Até comeria uma torta de morango se me fosse oferecida, mas não aquele bolo que cheirava à indigestão por ter se demorado e se gabado tanto tempo na prateleira cheia de clientes passando um a um, um a mais, um a menos. Agora quero apenas um pão bom com manteiga, estalando com a mordida do dente e a lambida bem vinda. Um pão novo sem ser muito fresco. E nada de doces muito cheios de confeites e fermento. Fazem mal para os dentes e massa muito cheia de coisinha dá congestão. Apesar de adorar pasta...
    E chega de pães duros fatiados. Aliás, chega de falar de massas! Pra mim agora bastam apenas eu, as paredes de minha cozinha e a mesa de reflexos do fura-bolos do Narciso que só se (en)canta com seu próprio gosto e rosto. Nunca liguei mesmo pra besteiras... Quem sabe talvez o que me falta é um pouco do narcisismo psicanalítico de egos bem fermentados e confeitados pra me mostrar e colocar de enfeite na prateleira?... Pra todos olharem e dizerem: Olha que beleza! Talvez a idéia me incentive, e parece cativar ainda mais alguns doceiros garbosos...


Isso foi tudo o que esse bolo me ensinou para fazer essa receita, digo, esse recital, o único que esses pães me fizeram preparar até então. Já quanto a seus doces e massas bem feitas e fermentadas, é bem provável que eu também tenha participado, mesmo que sem querer, mas até que foi de bom grado... Apesar de ter trocado de padaria pra não entrar mais em filas furadas.




ps: Espero que o anelar dessa noiva que vi hoje esteja bem ajambrado. Tudo também depende do cumprimento de sua mão e do comprimento de seu fura bolos.

AMORTECEDOR

...AMORTECEDOR?

AMOR TECE DOR?...


AMOR TE(M) CE(M) DOR(ES)...




A MORTE CEDO R(ESOLVE)
(...)A MORTE CE (IN)DOR(LOR)



AMOR TE (ACORDA) CEDO (E LOGO G)R(ITA):
AMORTECE DOR!



AMOR TE... C(S)E(M) DOR(ES).




AMORTECEDOR!...

sábado, maio 12, 2007

TRAÇOS

certos traços traçam a dimensão de panos de prato bem postos na mesa farta de misérias e gulodices... a língua molhada e dentes muito brancos e afiados traçam a comida disposta pelo olho, às vezes maior que a boca. Tratados são tratados de forma leviana entre essas mesmas línguas, dentes e bocas que engolem e vomitam tratamentos intragáveis. pedaços do prato de fino trato são trazidos à mesa pelo tempero da bílis, tudo sob os olhares magros de quem não tem apetite, de quem não sente fome e também não se farta. de quem foge da deglutição, da temida ou proposital regurgitação e das delícias da degustação. tudo por já terem pesos traçados pela balança que se cansa de tanta comilança e mendicância dos donos de panos de prato cheios de traças, de receios e medos de se fartarem, de engordarem ou de ficarem sem comer e morrer.
alguns traços podem ser traçados pelos compassos, outros podem ser pesados pela balança. outros são tragados e tratados.

Já outros são imensuráveis e inefáveis, por mais que se tente tragá-los e tratá-los...

quinta-feira, maio 10, 2007

IMPASSE

Esses impasses cheios de descompassos... Passam e partem pro passado... Dão alguns passos e um novo presente: livre de laços mal colocados, estômagos embrulhados, doces indigestos e agora vomitados... Impasses passam, deixam alguns passos, mas logo apago suas pegadas e jogo fora passagens expiradas... quem sabe já são páginas viradas de um livro que não pretendo reler... e se caso aparecer, coisa que não pago pra ver, não vou querer nenhum impasse, apenas passagens rápidas. Chega de impasses. O que me consola é que impasses acabam.

segunda-feira, maio 07, 2007

Esperar é morrer e viver

Algo me intriga sobre o mistério que existe em cada espera.
Intriga-me esse segredo sondável pelas frestas do esperado... É de fato intrigante as surpresas inesperadas daí surgidas.
Esperar é uma forma branda de morrer e também pode ser a forma mais radical de se revirar e mexer a vícera mais vital que nos faz viver.
Algumas esperas soam como rezas a se repetir e se propagar como um mantra de esperança e, se esperar com certa persistência, quem sabe sobre alguma certa perseverança.
Esperas dilaceram ansiedades reinantes em agoras que não aguentam esperar ver pra crer. Esperas não garantem chegadas triunfantes, apenas vontades e desejos imperantes em cada ânsia de se ter, ânsia de ser e do ser. Porém, esperar já é de fato possuir pelo menos uma fração do que se espera, já é no mínimo trazer pro presente esse tal futuro latente. E o que esperar da espera? Será que esperas esperam?
Talvez esperem passear além da imaginação e entrarem no reino da ação, tornando-se assim encontros inesperados em presentes desesperados.
Espero ter encontrado o que esperava, e talvez ainda espero...