sábado, julho 06, 2024

Ai de mim, Copacabana!

 Ai de mim, Copacabana!

Ai daquele, que após viver entre seus postos
2, 3, 4, 5, 6...,
marcados por linhas imaginárias
entre as muralhas de torres geminadas
como um arrodisement típico de Paris
espremido entre as rochas e o mar,
teve o infortúnio de dali partir

Ai é o gemido calado,
dado num dia nublado, quando entrei no carro
sem querer me despedir de ti
Dourados foram os anos presenteados
com pedaladas e passos bem dados
às margens da longa Avenida de nome mítico
pelo calçado da princesinha do mar
desenhado com curvas bicolores sinuosas
pelas veredas famosas mundo afora
a tropeçar no bambolear das pedrinhas da terrinha

Sim, havia pedras ao longo do passeio público
O grande poeta sentado em seu banco perene é testemunha
da via ladrilhada de magma condensado
extraído da antiga pedreira de Botafogo? de João Romão, de Jerônimo... e tantos Josés
de agora?
de outros tempos
fragmentos de ficção, ou ainda de fantasias
grãos de areia fina do Saara pousados na pele dos pés de todo tipo de gente:
turistas, cariocas da gema, da borda, baixada, de gestação, adoção
coração
de senhoras distintas agentes e pacientes de sua transmutação:
"Copacabana na década de 50 era uma jóia, uma jóia!", exclamava minha tia-avó paterna em certa ocasião, retirada na Gávea
(pois quem vive uma vez em Copa, e se vai, sempre será uma expatriada)
Sim, tia Célia, "Copacabana era uma jóia!"
Copacabana É uma jóia
rara, arranhada e real
Da Av. Princesa Isabel aos domínios da Rua Rainha Elisabeth
Agora com um príncipe a habitar seu mais belo palácio, em plena pandemia
Creio que o vi certa vez no terraço, a adentrar um dos salões
Tornado então vazios de aglomerações
pelas restrições
mas repleto de música e poesia de Jorge, tanto o guerreiro quanto o Ben da música de um país tropical,
então abobalhado pelas piadas de desgraças de um palhaço no planalto

Ai de ti, antiga capital federal!
Se ainda fosses soberana sobre o país que representas como cartão-postal, o que farias desse cenário?
O que farias de nossa História?
Ai de nós, ai de vós também, Copacabana, Flamengo, Madureira, Brasilândia, Ipiranga! 
Ai de mim, e do poeta prostrado no banco e do cronista do Espírito Santo e dos artistas e de todos aqueles agraciados pelos abraços de suas ondas, labirintos de edifícios de décadas cantadas em becos de garrafas
e ruas arborizadas - sendas de passagem de senhores donos de apartamentos e relatos, além de abrigo aos desvalidos
Ai daqueles, Copacabana! Ai da gente em suas ruas
Ai de nós apertados em seus caros conjugados, apartados de seus amplos quartos
Jamais pensara que suas pedras, praias, prédios, ruas, becos, esquinas e avenidas me cativariam tanto ao ponto de ter de exclamar:
Ai de mim, Copacabana! Ai de mim, longe de tuas tramas...
Em pensar que no reino de meu peito foste alçada de Princesa à Rainha do meu amar.

01/03/2021

terça-feira, abril 25, 2017

Baixo Ventre


banho quente, demorado
muitos banhos, num intervalo
de um dia, da semana
permeada de passadas
por paragens cotidianas
medidas de retângulos vizinhos
ruas de documentos extensos
manhãs discretas, calados na caída da noite
subsolos obscuros, quadras de queimadas
treinos dos membros, chamadas orais
academias matutinas, faculdades fisiológicas
onde a massa é trabalhada
e a torta, fermentada
num quadrado bem fechado
de um vão silenciado
por ruídos de um mudo
pelas cordas de um surdo
engolindo, escondendo
tais sinais anunciados
e miradas desviadas, assim era sua palavra:

descidas de escadas
desvios de rotas
subidas desenfreadas

seu relato: atos falhos
pontuados por atalhos
daquele que não se aguenta
não contente com seu pão
come mais onde o ganha
engole a massa sem alarde
e disfarça mas engasga
quando diz que fez foi graça
que não pega mas não nega
as delícias da cozinha
da casinha do patrão
num banquete bem secreto
parabéns bem apertados
com latidos e lambidas
e os rabos abanados
espumas, taças e bicos
ali se faz ali que fica
aqui se fez aqui se foi
sua língua então pinica
pela massa então servida
sobremesa proibida
pela boca de pudim
canta e conta e mostra a conta
a caixinha merecida
na poupança do garçom
outra feira, talvez terça
na quentura do sabão
do banheiro já encharcado
palmas e parede, pés levitados
lago espalhado, riacho na pia 
diz que foram os clientes
sem noção, educação
mas o banheiro é prova viva
a privada é testemunha
foi a madame não
foram os banhos ao quadrado
os intervalos asseados
a escoarem pelo chão
serpenteados pelas frestas
pelas línguas dos colegas
a prestar muita atenção
em arestas de promessas
de fachadas, ajuntadas
por agentes sem cuidado
por triângulos, por quadrados
pelos banhos não contados
no entanto comentados
a vazar por entre a gente
a melar cada pedaço
de uma manhã fotografada
de segunda, de sorrisos
já apagados nessa altura
nesse andar, apenas rua
e o mar é testemunha
nem um beijo foi guardado
o estalo, tão ligeiro
logo o lábio é cerrado, o umbigo escancarado
kundalini invertida
e a lembrança que me resta
é somente uma colmeia
várias vespas travestidas 
de abelhas indiscretas
a rondar um
baixo ventre
misturado com sabão
penteado pelo ralo
fim do banho, apressado

Ouvindo: Rolling in the deep - Adele

Santos 25/04/2017

sexta-feira, novembro 06, 2015

Qual a natureza por trás dos montes?...

Às vezes, muitas poucas vezes, me pergunto sobre o que as pessoas próximas, e talvez nem tão próximas assim, perguntam sobre mim. Não da minha pessoa em si, se é que uma pessoa dentro de outra de fato existe, mas do estado ao meu redor, da cidade, do bairro, do cenário onde minha vida está no momento atual: vivendo numa colina, praticamente na zona rural, afastado da cidade, pequena ainda por cima... Me faço agora tal pergunta por ouvi-la por aí, e algumas vezes, mesmo que poucas, de vozes vindas de minha cabeça. O mais engraçado é que a frequência de meu questionário nos dias de hoje costuma ser mais raro do que em dias passados, quando não passava um dia sequer sem me perguntar a seguinte questão: o que estou fazendo aqui, nesse caos? E me dei conta de que foram raríssimas as vezes nas quais me lembro - e olha que tenho uma ótima memória - que alguém me perguntava sobre o porquê de estar ali , naquela época e espaço. Agora, de onde estou, as pessoas me perguntam mais sobre o motivo de estar aqui, isolado às vezes por dias seguidos sem ver ninguém além de minha imagem refletida no espelho, como aquele personagem de um conto do Machado, se não me falha a memória com o título de " O Medalhão", que após ser nomeado a um importante cargo acaba obrigado a passar dias isolado numa chácara e chega quase a enlouquecer, até ter a brilhante ideia de vestir a farda capaz de lembrá-lo de seu sentido de vida, o medalhão do título. Claro que também cheguei a me questionar sobre qual seria o meu medalhão, é inevitável em algum momento da vida de todos, ainda mais ao se passar dias sem ver ninguém além das telas quadradas da tecnologia. E uma das possíveis respostas, mesmo que não definitivas, é a sensação de não fazer mais parte do imenso caldo humano fervente e sugado morno pelos lábios da imensa boca hábil em esfriar os ingredientes que correm de um lado para o outro sobre e sob sua enorme e áspera língua. Sim, destilei essa extensa descrição para ilustrar a grande metrópole urbana onde vivia. Aquele espaço comparado a tantas esferas, desenhado por tantas metáforas que as possibilidades de uso de suas imagens até parecem gastas, em alguns casos até esgotadas, apesar de ilimitada. No entanto, em minha atual situação, longe dela há um tempo considerável - por volta de três anos - nada mais natural do que torná-la assunto de minhas pautas, indagações, metáforas que já elaborava quando nela vivia: a grande cidade, suas possibilidades, limitações. Não tenho a pretensão de fazer aqui, do alto desta verde colina, um juízo de valor detalhado sobre seu dia a dia, suas relações, mobilidade, ofertas de atividades, entre outros pontos nervosos, apesar de ter todo o direito de tecê-los e vez ou outra chegar a expressá-los - geralmente numa das tentativas de responder às perguntas acima, - muito menos tenho a intenção de mostrar as vantagens de uma vida "alternativa", não é este o ponto. Apenas tento entender o que habita por detrás das alternâncias e frequências de certas perguntas: qual seria sua natureza, tanto alheias quanto minhas...quiçá de vocês...

(a continuar...)

ouvindo: Gotan Project - Diferente


domingo, junho 21, 2015

a pipa

cata pega o vasto vento

voa ágil pelo tempo

gira em torno do seu queixo

numa volta deu um beijo

bem na moita da lagoa

onde moram os percevejos

com um toque fez acorde

canta agora enquanto pode

amanhã cigarra explode

leva a casca para longe

onde o sabiá esconde

a nota d'um

real

guarda bem o beija-flor

muito usado e trocado

por um dois todo azulado

nota nova marca d'água

no inverso sempre a cara

coroada de laurel

quem a encara logo vê

a virada da estátua

mira o verde passarinho

sob a asas sob a águia

sobre tudo a cobertura

sobre cobras e lagartos

sob olhos afiados


que tudo cota

que tudo cobre

que tudo níquel

que tudo nota

que tudo olha

que não importa


guarda o ouro


lança o louro do pirata

papagaio pega a prata

paga o pato e pede água

pinta o sete e dá o pé

pega o pau e vai embora

balançando a rabiola







ouvindo: Queen of the Stone Age - No One Knows


terça-feira, junho 02, 2015

Dicotomias

Sempre dividido
Sempre marcado por dois ou mais lados
Nascido e crescido n'umbral de contrários
Sei bem como é pisar entre dois mundos
Sei bem o que é dicotomia antes mesmo de aprender a ler
Se é que se pode saber entre o ser e o não ser eis a questão de antemão
Dizem que os opostos se atraem
Outros dizem que se distraem
Li certa vez que tanto na dinâmica social ou da física o exato acaba partido,
dividido entre mil atos, cenas, elucubrações
Só sei que devo conhecer bem essa história de frações, divisões de pedaços expostos à prova, pra prova
Ter em conta as oposições e posições díspares mesmo antes de aprender a cartilha,
o caminho suave permeado de entraves, travas elétricas, portas a marcar a repartição de lados
Veja a família, ah, a família, microcosmo de uma variedade de direções de versos
Olhe a minha: de um galho avós vindos do mar, de outro do mato
galhos em grande parte oriundos de um mesmo tronco, a mesma península além-mar:
dividida entre povos cada um com suas tribos e línguas cortadas por acidentes geográficos e sociais: mais um exemplo de exato cindido, cortado, recortado, costurado, remendado
avôs galegos, ou espanhóis, ou galegos espanhóis, ou apenas galegos, ou somente espanhóis setentrionais... de uma banda isabelinos, de outra carlistas
só sei que eram todos monarquistas a aportar numa república de sonhos, espadas
nascimentos, cisões, ressurreições
avós com origem na terrinha, com ancestrais que não perderam de vista o caminho das índias
não as do oriente, mas das Américas, não aquelas do norte com suas linhas retas e
sim as do sul com seus tratados e traçados cheios de curvas, acordos e veias abertas por galego-portugueses meridionais de feições mouriscas e semitas
trilhas nas subidas de serra, picadas na mata de planaltos
campos de batalhas travadas nas linhas de causos trovados por Galeanos em castelhano rio platense
bandeiras a rumar ao oeste em busca do eldorado
conquistas de paus, ocas, tabas, casas daqueles caçados como animais e catequizados como criancinhas
seiva e sangue jorrados no chão da nova colônia, futuro reino, império dos sentidos tropicais e subtropicais a atrair com promessas e princesa e montes de suíços e austríacos a atiçar carnes fundidas em misturas de um caldeirão de feijão com carne marrana
além do preto e do branco e vermelho
misto de repertórios de lendas, folclores de sacis, curupiras e enfim o caipira
casas de pau a pique, Casas Grandes e senzalas prolongadas até décadas marcadas por revoluções de um David contra um gigante nada adormecido
sucessões de lutas silenciosas, caladas ou sonoras
como a ogiva encontrada no jardim da chácara onde morava
quando criança ainda ignorava que crescia num mundo de divisas, estratagemas, táticas
nomenclaturas a costurar tecidos de povos a cobrir a pátria armada com uma colcha de retalhos
Sim, passei a maior parte da vida entre frações, divisões, adições, subtrações, uma aritmética de fractais de passagens e outros mais nós igual a todos
cresci brincando em meio às minas no quintal de casa, a nadar em rios de meses passados entre os estados gravados não apenas no mapa do livro de geografia e suas classificações:
zona rural / zona urbana, zona central / suburbana, vilas clementinas, marianas e brasilândias
Bixiga, Bela Vista, Quinta da Boa Vista, Maracanã, FLAmengo, baixada FLUminense:
bairrismos repartidos em minha memória atual e ancestral
serra / planalto / planície, capital, interior, capital, litoral, capital inicial, capital de giro
ativos/ passivos, baixadas, baixinhos, altos gritos do Ipiranga, classes médias, camponeses, burgueses, paulistinhas, caiçaras, CAriocas da geMA, PAUlistas que se veem como claros..., mineEiROS a comer calados
estados bebendo e comendo lado a lado sobre a alta mesa da Mantiqueira

...membros em tensão, tesão, pulsão

levo em meus canais águas de rios de margens opostas
uma~raia a nadar em interstícios de sítios e coutos mistos
um peregrino a cruzar serras e mares
carrego em mim diversas delas
elas:
às vezes tri
as ditas
di
 coto
   mias

02/06/2015

ouvindo: Criolo - Fermento Pra Massa 

domingo, agosto 19, 2012

reinos, ruídos e sentidos


O que dizer quando tudo o que se tem pra falar em dado momento seria apenas palavras espalhadas no vácuo de um espaço repleto de clamores por preenchimentos que não passam de um amontoado de partículas de oco,oco,oco.  Necessidades patológicas (de muitos, de alguém, de quem?) por manter sempre o ritmo alucinante de movimentos que exprimem necessidades de não se deixar a peteca cair, a linha cortar e desocupar-se. Como em um (suposto) diálogo no celular em que o outro estranh@ quando o interlocutor do outro lado se põe apenas a escutar e esboçar um calar fremente, fazendo logo surgir do outro lado os (re)correntes: "Você está aí?", "Alô!", "Você tá me ouvindo?", "Então, como estava dizendo...". Quem sabe pra se certificar de que seu (o meu? o teu? nosso?) monólogo não é em vão, de que existe em sua própria razão de ser consciente e consequente. Uma garantia de que o enxerto de expressões possa reinar absoluto sem a intromissão daquele que sempre está a tudo rondar, aquele que sempre teima em aparecer em toda ocasião de alguma suposta não interação. Aquele que por mais que se tente afastar com muita saliva, excesso de tons e sons, ainda assim permanece entre as pausas e entrelinhas das palavras, posts, ligações e situações. Aquele que povoa nossos momentos de dúvidas e curiosidade por (nossa? minha?) pura ignorância do que isso, esse, enfim, do que essa tal coisa possa ser capaz. Talvez por termos a noção, mesmo que mínima, de sua potência, sua força motriz capaz de movimentar e modificar a mais sólida e complexa massa. E, principalmente, por representar o que muitas vezes não podemos suportar. O fim da linha. Término da bateria. Corte abrupto da garganta a pronunciar discursos, entoar canções onde seu gérmen está sempre presente ao final de cada batida, tom e saída. Império do silêncio ensurdecedor a criar ruídos, gritos, sussurros, gemidos e grunhidos a movimentar redemoinhos e reverberar em incontáveis ouvidos e sentidos.

Ouvindo: o fim de uma canção.


sexta-feira, novembro 25, 2011

Redes, correntes e peixes

Estava vendo agora há pouco um vídeo no youtube chamado "você precisa sair do facebook"; o link tá logo abaixo, não sei fazer o esqueminha de colocá-lo na palavra... Se trata de um cara expondo sucessivamente cartazes com dizeres do tipo "você não tem 852 amigos". Tal apresentação, inevitavelmente, fez-me pensar sobre minha relação com redes sociais, blog, incluindo este aqui, mensageiros e afins, enfim, a teia virtual face aos fatos reais e virtuais. Faz já um tempo que tenho pensado sobre essa coisa de que praticamente faço parte de uma geração, pelo menos aqui no Brasil e no meio social em que vivi, a ser a primeira que cresceu junto com esse monstro (em suas várias acepções) chamado internet. É engraçado pensar que quando tinha meus treze pra quatorze anos, lá pelo final da década de 90, no final do século XX, final do último milênio da era comum... essa presença hoje quase constante era vista como uma novidade, mesmo nessa época já ter sido criada há mais de uma década. Lembro de revistas, em papel e eletrônicas, surgindo pra comentar sobre essa rede de novos espetáculos. Éramos como desbravadores de um admirável mundo novo de conexões discadas, lentas e demoradas, que comiam os pulsos das linhas telefônicas. Atualmente com as rápidas bandas largas a desfilarem em um piscar de olhos, ou melhor, em apenas um click no rato, talvez tenha me dado um efeito nostálgico de um tempo em que durante os dias "úteis" da semana tinha de esperar dar meia-noite para me conectar com esse mundo de maravilhas. Hoje, após meu crescimento (de números na idade expostos na carteira de identidade) e do lugar onde neste exato momento em que escrevo agora estou, vejo que, obviamente, muita coisa mudou, transformou-se, e ao assistir esse vídeo do moço dos cartazes a falar de relações virtuais e reais me ponho a pensar em minhas redes sociais, virtuais e virais, que apesar de mergulharem em muitos pontos, praias e portos, ainda assim se interconectam numa mesma corrente de canais, naturais e artificiais, trazendo à tona uma forma de realidade repleta de nuances e tonalidades diversas. Como o próprio "livro da face", por exemplo, que, muitas vezes, ao se olhar na lista de "amigos", percebe-se que muitos rostos ali não passam de espectros de uma realidade que já não existe, de imagens que te faz lembrar daquele lugar comum que não nos deixa facilmente: a lembrança de um tempo que não volta mais, ou melhor, nesse caso, de diferentes pessoas que passaram por sua vida em determinado momento e que hoje muitas não passam de perfis que não mais te dizem respeito, ligam-se a você apenas por um fio de memória vaga que parece não te levar a mais nada além de uma pequena lembrança aqui e acolá. São como fantasmas em forma de figurinhas em um álbum de formatura de colégio norte-americano, aquele que vemos nos filmes de sessão da tarde. Por mais que se viva numa cidade gigante como a que eu vivo, às vezes parece que ainda moro numa cidadezinha de interior ao entrar na tal rede social e me deparar com um comentário ou com a feição daquela pessoa que um dia você pensou que seria um eterno amigo, e que hoje não passa de apenas mais um peixe em sua rede de dezenas e centenas e um milhão de "faces"; ou aquele sujeito que você nunca iria imaginar ainda dar de cara com ele/ela em sua tela. É, tudo isso parece até um déjà vu sinistro. Ainda mais para alguém com uma tendência ao paradoxo de iconoclastia misturada à nostalgia. Sei muito bem que também existe a opção de deletar, excluir, terminar sua conta, porém nem sempre para sempre. Já fiz e ainda faço muito disso. Cheguei até a cometer o homicídio (ou seria suicídio?) do perfil do livro da face, e ao tentar conferir a veracidade de sua morte, acabei caindo novamente na rede social ao ressuscitá-lo, e com a decisão não mais extingui-lo, pelo menos por enquanto. Assim como este exato espaço, onde ainda teclo em meio a uma rede repleta de cardumes, sereias e tubarões. Resistir à isca não é coisa fácil não...
Ouvindo: PJ Harvey - "Down by the water"